Foto: Ricardo Stuckert/Lula Oficial (CC BY-SA 4.0)
Duas semanas atrás, o mercado apostava que o resultado das urnas já tinha dado a direção da bolsa. Nesta sexta-feira (16/10), o cenário é mais cauteloso: a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) no segundo turno caiu de 4 para 2 pontos percentuais em uma semana, segundo o Datafolha divulgado na quinta-feira (15/10), e o Ibovespa fechou o pregão da própria quinta em queda, acumulando perda de 2,3% na semana, segundo a InfoMoney. O chamado “trade eleitoral” — a aposta de que a vitória de Flávio destravaria um ajuste fiscal mais rápido — ainda existe, mas perdeu a euforia dos primeiros dias depois do 1º turno.
O que mudou na pesquisa Datafolha
Na rodada mais recente, Flávio Bolsonaro tem 47% dos votos totais e Lula, 45% — contra 49% a 45% uma semana antes, segundo o Datafolha. Em votos válidos, a diferença é de 51% a 49%. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, o que classifica a disputa como empate técnico. A InfoMoney lembra que a Quaest, divulgada um dia antes (14/10), já apontava um resultado parecido: 46% para Flávio e 44% para Lula.
Os dois candidatos têm bases distintas. Segundo o Datafolha, Flávio lidera entre eleitores da classe média, no Sul, no Sudeste e entre evangélicos; Lula tem vantagem entre quem ganha menos, no Nordeste, entre católicos e entre mulheres.
Por que isso esfria o trade eleitoral
O “trade eleitoral” nasceu da leitura de que um governo Flávio traria reformas fiscais mais rápidas, e inflou ações como a Magazine Luiza (MGLU3), que subiu 49,28% entre o 1º turno (04/10) e 13/10, segundo a InfoMoney. Com a disputa mais apertada, o economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal, descreveu o movimento recente como um “choque de realidade” depois da reação exuberante ao resultado do 1º turno, segundo a mesma reportagem da InfoMoney. Márcio Riauba, do banco de câmbio da StoneX, disse à InfoMoney que o rumo do dólar “dependerá menos do resultado do primeiro turno e mais da velocidade de convergência das próximas pesquisas”.
A própria InfoMoney resume o momento dizendo que o trade eleitoral “permanece vivo”, só que agora com menos euforia e mais sensibilidade a cada nova pesquisa e declaração de candidato. Bancos como UBS e Goldman Sachs continuam vendo espaço para a bolsa subir mais — o Goldman projeta o Ibovespa podendo chegar a 225 mil pontos —, mas condicionam isso a uma melhora efetiva da percepção de risco fiscal, não a um resultado eleitoral isolado.
Como o mercado fechou a semana
No pregão de quinta-feira (15/10), o Ibovespa fechou em 204.324 pontos, queda de 1,06%. O dólar encerrou o mesmo dia em R$ 5,0521 pela PTAX. A Selic, meta definida pelo Copom, segue em 13,75% ao ano. Para quem tem ações dos setores que mais subiram no pós-1º turno — varejo, construção, educação —, a lição prática é que parte do ganho recente estava precificando um cenário ainda não confirmado nas urnas; uma disputa mais apertada tende a aumentar a volatilidade até o segundo turno, em 25 de outubro.
A dúvida que Lula ainda não explicou sobre o Bolsa Família
No mesmo dia em que o Datafolha saiu, Lula deu entrevista à TV Globo e afirmou que não sabia que o Bolsa Família estava sem reajuste desde 2023: “Eu não sabia”, disse, classificando a situação de “inexplicável”. Ao anunciar a correção, ele declarou: “Tomei a decisão: vamos dar tudo o que a gente não deu para não acontecer nunca mais”. Questionado sobre o caráter eleitoral da medida — anunciada poucos dias antes do 1º turno —, Lula negou intenção eleitoral e respondeu apenas que “fiquei sabendo que não tinha sido aumentado o Bolsa Família e fui perguntar”, segundo o Money Times.
A mesma reportagem lembra que a possibilidade de reajuste já era discutida no governo havia meses — em fevereiro de 2025, o ministro Wellington Dias disse à DW Brasil que a hipótese estava “na mesa”, algo que o governo chegou a desmentir depois. O Bolsa Família só saiu do congelamento em setembro de 2026. É esse intervalo entre a discussão interna e o anúncio, feito perto da eleição, que mantém o debate sobre viés eleitoral em aberto — assim como o pacote de perdão de dívidas de MEIs anunciado pelo governo na mesma semana, também sem detalhamento de custo até o momento do anúncio.
Nem o Datafolha nem o mercado têm como separar, por ora, o que é política econômica e o que é cálculo eleitoral nesses anúncios. É essa mistura — pesquisa mais apertada, medidas de governo com custo fiscal e um segundo turno que só sai em 25 de outubro — que explica por que o trade eleitoral, depois da euforia, virou aposta mais cautelosa.
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