Foto: US Embassy Sweden/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Os números de hoje
- Selic (meta): 13,75% a.a. — quinto corte seguido do Copom, decidido em 18/09/2026
- Câmbio (PTAX/BCB): R$ 5,1575 — último valor publicado, referente a 18/09/2026 (PTAX de hoje ainda não estava disponível no fechamento desta edição)
- Ibovespa: 185.551,2 pontos (+0,174%, +322,03 pontos), snapshot intraday de 21/09 — não é o fechamento oficial; a B3/brapi.dev não pôde ser consultada por erro de autenticação, dado obtido via fonte alternativa
Fed trava, Copom corta: o real no meio da gangorra
O assunto que dominou os portais de mercado nesta segunda-feira não foi um número novo da economia brasileira — foi a distância entre o que o Federal Reserve sinaliza para os juros americanos e o que o Banco Central do Brasil já vem fazendo há meses. Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, disse hoje, em evento em Londres, que só ficaria confortável com queda de juros nos Estados Unidos diante de “evidências convincentes de que a inflação está voltando para 2%”. Ele foi direto: “parece que entramos em um período em que grandes choques de oferta — de guerras, tarifas, clima, interrupções nas cadeias de suprimentos, petróleo e outros — se tornaram uma característica regular da economia”, e sem sinal de que esses choques estão recuando, “é difícil enxergar um caminho crível de volta à inflação de 2%” (Money Times).
A frase resume o impasse do Fed: taxa de juros ainda em patamar elevado nos EUA, sem data para começar a cair de forma consistente. Do outro lado do Equador, o cenário é o oposto. Na semana passada, o Copom cortou a Selic pela quinta vez seguida, para 13,75% ao ano, e reafirmou que “a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações” — ou seja, deixou a porta aberta para novos cortes, sem se comprometer com o ritmo (InfoMoney). O mercado já reagiu: segundo o noticiário de hoje, casas de análise revisaram a projeção da Selic para 2026 para 13,50%, um corte a menos do que se falava há poucas semanas.
É essa combinação — Fed resistente, Copom afrouxando — que os analistas vêm chamando de “gangorra de juros”, com o real bem no meio dela. Na teoria mais simples de fluxo de capital, quando o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos diminui (porque a Selic cai enquanto os juros americanos ficam parados ou sobem), o real tende a perder um pouco do apelo que tinha para o capital estrangeiro em busca de retorno em renda fixa. Isso pressiona o câmbio, ainda que o efeito não seja mecânico nem imediato — outros fatores, como o quadro fiscal doméstico e o apetite global por risco, também entram na conta.
Para quem investe, a leitura prática é dupla. De um lado, a continuidade dos cortes da Selic tende a reduzir o retorno de aplicações atreladas ao CDI e à própria Selic, empurrando parte do dinheiro para ativos de maior risco em busca de rentabilidade — bolsa, fundos multimercado, crédito privado. De outro, um real mais pressionado encarece importação, viagem ao exterior e insumos importados, o que tem efeito direto sobre o custo de quem empreende com componentes ou matéria-prima de fora. Já vimos esse debate no post Selic a 13,75%: mercado se divide sobre pausa ou novo corte, publicado aqui na semana passada — e ele segue tão atual quanto antes, agora com o ingrediente extra da postura do Fed.
Não é um cenário de pânico. É, isso sim, um lembrete de que política monetária não se decide isoladamente: o Copom olha para dentro (inflação e atividade no Brasil), mas também para fora (o que o Fed sinaliza), porque o custo do dinheiro nos Estados Unidos influencia o apetite por risco no mundo inteiro, Brasil incluído.
O que observar amanhã
A semana já começa carregada de agenda. Amanhã, terça-feira (22/09), sai a ata da última reunião do Copom — o documento costuma detalhar o racional por trás do corte e dar pistas mais claras sobre o que o comitê pensa para a reunião de novembro. Depois, na sexta-feira (25/09), vem o IPCA-15, prévia da inflação de setembro, que vai testar se a moderação vista nos últimos meses continua ou se algum choque pontual atrapalha a conta. Detalhamos o roteiro completo da semana no post Mercado hoje: semana decisiva com ata do Copom e IPCA-15, publicado ontem — vale a leitura para quem quer se antecipar ao que pode mexer com juros e câmbio nos próximos dias.
Este texto tem caráter informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo.
Fontes: InfoMoney — BC corta Selic em 0,25 ponto, para 13,75% ao ano e Money Times — Fed vê choques de oferta virando rotina e inflação pode demorar a ceder.
Foto: Pedro França/Agência Senado (CC BY 2.0)

